quinta-feira, 24 de maio de 2012

Não te perdoo, cidade


Não te perdoo, cidade,
Que na tua imensa correria,
Não aches por um só dia
Uma sombra de verdade;

Cidade, não tens perdão,
No teu arfar incansável
Não se te dá em encontrar
Um único homem são;

Pois se velas sem cessar
A violência em mistério
Porque não magoar a sério
De faces e sangue a jorrar?

Se te anima a morte inocente
Como a um sedento canibal
Porque não assumir o mal
Dessa pérfida indiferença?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Terra de Escombros

Terra, já não terra

Mas palco de vontades,

Espaço, indulto, céu,

Mísero cortejo de vaidades,

Fome e incompreensão,

Formas, formas sumidas,

Talvez chegado o dia em que serão

Sensações vendidas,

Dor, não é dor ainda

Mas pronúncio vago

Solto ao acaso

N’alma minha,

Fantasmas, monstros pairadores,

Sede sanguinária

Assalta a miragem da Paz,

Verdade, não é verdade

Mas semântica sem sentido

Num mundo individual

Onde nada é realidade,

Morte, já não é morte

Mas manifesto ou alma

Sem saber onde começa e acaba

Mas onde se esconde,

Palavras, não são palavras

Mas rumores, rumores vagos do além

Sussurram sobre culpa e verdade

Sobre todos? Sobre ninguém?

Correr, fugir para longe,

Correr esse país infinito

Onde a fome mata de verdade

De verdade...

domingo, 25 de dezembro de 2011

Partem comboios

Partem comboios ao amanhecer,
Partem vazios de esperança,
Saem pela cidade no silêncio
Abrupto da ignorância,

Vão, vão e em vão, comboios apinhados,
Repletos de gente muda e amedrontada,
Esmagam nos seus trilhos os inaptos
Torturados no instinto da manada,

Partem, desde quando, até quando?
Quem os ordena? Com que valor?
Quem nos vale no deserto povoado?
Talvez, a sorte, talvez o amor?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Homenagem a João Peste

Lembras-te João,
Da folie dos oitenta e das festas
De cores garridas, as mulheres
Peludas e os óculos démodés?
Os toques desgarrados na
Guitarra que parecia abrir
Caminho, as noites de loucura
E embriaguez – o pleno, o
Esquecimento?
Era nesses momentos que
vinhas a ti, nu, original num
templo descarnado onde sacrificavas
toda uma vida de conforto e mediocridade
por um momento de verdade?
Então o mundo abria-se sem par,
Cheio de possibilidades e sensações,
Uma só descoberta e adormecias.
Mas de manhã, quando acordavas,
Era tudo mentira, e só a
Ressaca descomunal te fazia voltar
ao pesadelo, ou o deserto e a
falta de perspectivas e um
mar de incompreensão e intolerância.
Sim, talvez fosse essa a verdade, mas
O sonho segue vivo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sopro

A um sopro volátil
tudo, efémero, se esvanece
E a humanidade cedo esquece
Que um dia existiu Voltaire,

Não vivemos o amanhã
E o peso nefasto da hora,
Não é o amanhã sempre o agora
Agora e perpétuo amanhã?

Sempre o inexorável presente,
Como se não existira memória
O desejo de paz ou o fim da história
Paira em ilusão eternamente,

Sempre nós, sempre os mesmos
Abandono sensorial,
Complexo universo burial,
Os mesmos conceitos, mesmos termos.
A um sopro volátil
tudo, efémero, se esvanece
E a humanidade cedo esquece
Que um dia existiu Voltaire,

Não vivemos o amanhã
E o peso nefasto da hora,
Não é o amanhã sempre o agora
Agora e perpétuo amanhã?

Sempre o inexorável presente,
Como se não existira memória
O desejo de paz ou o fim da história
Paira em ilusão eternamente,

Sempre nós, sempre os mesmos
Abandono sensorial,
Complexo universo burial,
Os mesmos conceitos, mesmos termos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Da memória

Lembro-me de um pequeno mago
(talvez fosse grande, lá para os lados do Lilliput?)
Bom, o que interessa é que tinha boa memória.
Memorizava tudo o que ouvia. À primeira.
Fixava cada pormenor do que escutava,
Avesso a abstracções, claro está.

O pequeno grande é dos bons! Não faz juízos de valor.
Faz bem em não arriscar. Já demasiados arriscaram
Demasiado, e por isso mesmo demasiados não recordam o seu apelido.
Joguemos pelo seguro, porque pelo menos, enfim, estamos seguros.

A um desses santos deu-lhe para o marquetingue.
Sacana! A inveja que lhe tinha cada vez que me
Arreganhava aquele sorriso!

Outro, porventura mais arrojado,
Deu-lhe para ser feliz, e em todo o
Quarteirão nem uma só alma o censurou.

Enfim, sabe Deus a quantos mais não dará
Para certas e determinadas coisas.

Ah! Se bem me lembro, falávamos da memória.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Despia-se no templo da Mona, onde o altar é um espelho

E as vestes puídas tombavam-lhe dos ombros,
Ao fundo, bem ao fundo, um povo cigano
Eternamente amaldiçoado pelo pecado original
Vagueia, ainda hoje, alimentando-se do roubo
E da caridade dos felizes para com os seus filhos
Deliberadamente estropiados;

Alimentou-se do sangue dos pobres e dos nobres,
Lembrando que um dia na história foram o mesmo;

Contemplou a vontade, tão mísera e impotente,
Submetida a uma outra … incógnita, irredutível;

Mas quando à noite recolhe ao seu leito
Beija, submissa, os pés do seu marido
Alguém a prevenira para o abismo que se abre,
Quiçá, em cada milénio, ou cada vez que o
Equilíbrio cósmico é perturbado…

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Disse o polícia, comendo a ameixa...

Disse o polícia, comendo a ameixa:
« Não existe, querida, isso a que chamas amor,
Existem sensações e químicos, sobretudo químicos…
De vez em quando resolvem-se conjugar e aí temos,
Nada de especial, o amor…

Lembraste de como o amaste, e de como
Três vezes juraste por todo o sagrado?
Pois te digo que as mesmas juras farás,
Vezes sem conta as farás e assim, bela como és,
Amarás cada vez que o decidires;

Sabes como és violenta quando te apaixonas,
Pois também o sei… e de quão rápido os esqueces
Como se de um sonho acordada não passara,
Pois podes sonhar essa farsa cada vez que assim o desejares,

E assim o amor voltará a surgir,
Tal como o mágico vai tirando os coelhinhos da cartola,
Radiantes os químicos voltarão a fluir
Como quem faz uma bela sopa…»

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ou outros ou nada

Ou outros ou nada,
Porque já não servimos
Demasiado cremos e ouvimos
O excesso torna a vista condenada;

Venha algo mais puro, ou a morte,
Aos nossos pensamentos poluídos
Uma voz que acabe com o ruído
Um timão que nos indique o norte,

A essa abundância imaginada,
Corte a sorte o fio do Ser,
Não sabemos o sofrimento e o prazer
Não sabemos viver nem morrer.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Por vezes a terra treme

Canto, canto, os desafortunados,
Os pobres de espírito, os fúteis,
Os medrosos, os covardes,
Os mentirosos, os preguiçosos,
Os melados, os maricas,
Os poetas, fugitivos,
Os parolos, os cativos,
Os doentes, os falhados;

Enquanto os que assim canto,
Existem e são vivos,
O mundo segue o seu castigo
Revestido de cores bonitas;

Enquanto os milhares se banham
Numa orgia de conceitos
Desfaço-me em frases feitas
E melodias decalcadas,

Mas por vezes a terra treme...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Que me vejas solto, franzino e sonhando,
Soturno, louco tresloucado,
Cada suspiro meu recomendado
Vai, em cartas perdidas voando,

Que me vejas perdido, arruinado,
À terra da marinha malfadada,
À estepe infinita abandonada,
Antes mudo para sempre que calado;

Que tudo vejas nú, desencontrado,
Porque ainda muito antes de ter nome,
Todos temos no corpo sensações,
------------------------------------------------
Ó se o diabo digital o deformara….
Sonharas inflações e deflações

E assim a nossa eterna agonia,
Sem um sopor genuíno de amor
De pouco ou mesmo nada valeria…

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sobre o desaparecimento

I - Erosão

Fujo, desato, como o que sinto, Como, bebo, durmo, ejaculo, Faço fita, olhares, esgares de vista, Por onde passo nada fica, tudo muda; O tempo cava em mim o precipício, De onde correm águas passageiras, Ao susto da subida o cilício, Do velho paternalista, Velho tolo, Já devo ter as vistas bem treinadas, E as orelhas do barulho massacradas.

II - Elegia

Cavaleiros Sem-Terra Jograis Barregões e Barregãs Filhos bastardos Jacques deste mundo Moçárabes Judeus Sans Cullotes Camponeses presos à terra E OUTROS FILHOS DA SEGUNDA SENHORA UNI-VOS! Vós sois o rio esquecido da história, Aquele que não desagua em lado nenhum, Espécie de mares ptolomaicos, UNI-VOS! A morte saúda-vos!

III - Não chores

Não o chores o momento linda não, São só sombras, esses que aí rodam, Não penses em guardá-los para sempre Guarda-os para ti longe, bem longe do coração; Não penses mais nem sofras por fantasmas, Eles passam e desvanecem-se, E outros virão e qual nuvem passageira, Pois se não sabes amar não aprendas, E sossega linda, sobretudo, sossega, A carcaça que tens tua é garantida, Ainda que pútrida, acompanhar-te-á para sempre.

IV - Bocas secas

Só beijo bocas secas sem saliva, Sonhos molhados me deram de saliva a imaginação entretiveram Mas beijo-as e nada, já não têm nada, bocas sem saliva.

VI - Poema plagiado

Poema plagiado, este sim...original, beleza e sentimento renovado na leitura. Poema, plagiado ou não, quem nunca não jamais te esqueceria Se me trouxesses um só silêncio, Contigo in testa, subiremos a montanha onde não haja ninguém, nem ideias nem sublimações, nem literatura nem prazer nem orgulho.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Porque era tempo

Porque era tempo
que fluíssemos esquecidos
nesse rio de gente morta,

Entre o crepitar louco da ribalta,
encontraríamos o nosso lugar,

Tempo de ver, com tristeza,
de novo, Europa,
o ribombar furioso dos tambores,
Esses que tão rápido aprendeste a odiar,
Rápido desaprendeste,

Se só na destruição te encontras,
Se só o sangue inocente dos teus filhos te sacia,
Porque não extinguires o teu falso brilho?

Porque não abjuras assim,
Já que sempre, para ti, é demasiado tempo?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ciclo Pornográfico

Todos os dias vemos pornografia na televisão. Anjos cadentes que salvam criancinhas da morte, caridade com os doentinhos, verdades noticiosas nunca suspeitadas, verdades tão verdade que são mentiras, acidentes de viação, choros em horário nobre; todo um arsenal pornográfico alimenta o imaginário de uma sociedade que não gosta de chamar as coisas pelos seus nomes. O século XXI poderá muito bem ser o século da pornografia, em que o confronto com a verdade (o que quer que isso seja) será uma obsessão animal. Talvez estes textos venham a trazer alguma luz ao que deve ser o verdadeiro significado do termo.

I - Job

Escolheste mal, Job,
O teu caminho,
porque a tua pobreza ostensiva
abusa da vaidade;

Em vez de te persignares
ao primeiro profeta que
te entre pela soleira,
porque não cantas tu os ricos, Job?

Dizem os saxónios
que a riqueza é um graça divina, Job
E porventura quererás contrariar
quem tem tais amigos?

Pobre Job, escolhe outra luta,
essa só a ti aproveita
e nem sequer dela t'alimentas.

II - A Medusa

Quando à noite te sentares
na tua cadeira de vime,
lembra-te, Medusa, que
ainda tens muito para
conquistar;

Saberás, porventura,
que a maior felicidade
jaz nos bens do mundo;
Poderia alguém censurar-te
se te mataram o Deus tão cedo?

Mais ai, pobre de ti, se te recusas,
se colhes apenas o que é fugaz
(ainda mais fugaz),
porque de corpo, além
das humanas secreções
colherás só o cinismo;

E é pena assim, é pena...

III - O tirano

Se o vento e o tempo
ainda têm lições para da,
a mais pusilânime será
que no amor não existe democracia;

Em modos liberais nos afoitamos
ao corpo desejado de Deméter
qual ladrão ocasional
encontra a janela aberta;

Cedo nos apegamos
às benesses do amor
e daquilo que tínhamos por empréstimo
nos queremos tornar donos e senhores,

O corpo tão desejado
o vemos, como uma extensão
do nosso próprio corpo,

E mais faríamos,
se porventura lêssemos os pensamentos.

IV- A Caçada

E por mais que a besta grite,
os seus lamentos continuarão surdos
nas paredes inertes do tempo;

Lembra-te, sonhador,
quantos génios como tu
(e cedo ceifados à vida)
a humanidade produziu?
E de quantos nada resta?

A besta grita porque grita.
Os seus gritos serão
(como sempre)
surdos, aos olhos do tempo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cristal

Aquela moça bela,
Sim, aquela e não outra,
Aquela insegura e delicada,
mexe os lábios com tal devoção,

Parece que me canta uma canção

Aquela moça, discreta e delicada,
Caminha pela rua a passo incerto,
Olha prá minha vida atarantada
como se visse a morte

Ai moça, discreta e insegura,
Se este cortiço castigado e duro,
pudesse arcar por ti a desventura...
Que bela sorte seria, e tanto mais feliz.

Se ao menos entregasses um momento,
Ou eu por ti nesse Calvário
Farias do meu braço o teu escudo,
E eu do teu corpo um santuário,

Onde todas as noites rezarei
Para esquecer o que jamais serei.

Prendam o monstro!

Prendam o monstro
antes que se consuma,
Qual fogo-fátuo-auto-inflingido,

Prendam o monstro que ele se comove,
Cheio de comédias e farsantes,
Vistam-no de rubis e diamantes
E vejam como a própria língua engole!

Parem-no, que ainda se mata,
Pois dá-lhe pr'a viver onde se acaba,
O monstro está de casa aperaltada
Entra pela saída, sai pela entrada!

Matem-no, antes que vos coma,
Tal é a raiva que enerva o seu ventre,
Alimenta-se a pantufas e inocentes,
Qu'inda lhe sai o tiro pl'a culatra.

Metam-no a urinóis e naftalina
Em direcção à terra prometida
E em vez de morte saír-lhe-á vida
Na estepe infinita, onde o prazer se (é) taiga,

Lembrem-no que se leva ilusões,
Aí encontrará e com fartura,
Planícies desertas de verdura
Pedaços d'oxigénio aos montalhões!

O horrendo corpo que tão mal se aguenta
Nas curvas do desejo encontrará,
Em banhos de água pútrida lamenta,
A história, que por certo voltará.

Tragam-no ao porão bem amarrado,
Metam-no a cantigas curriqueiras,
Que a fama o tem fá por afortunado!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Canto às Urtigas

A José Saramago,


Há algo no mar, que ao longo se avizinha,
Uma sombra, corsário, Adamastor,

Pudera uma canção,
Um simples canto, um reflexo,
Uma prece oca, uma ilusão,
Uma triste história pachorrenta
Uma mentira, cançoneta em falsete
Despertar a nossa vida;

Pudera que assim hoje,
Tudo tão leve, nos leve ao fundo,
Nos faça amar o irreal
Na Babilónia de papel
Qu nos esmaga como chumbo;

Pudera que uma vez,
Qual ténue abrigo em alto mar
Nos traga de novo a nós
O mundo perdido ou nunca achado
A procura?

sábado, 2 de outubro de 2010

Adeus!

Ainda ontem vira
mais uma cidade erguida do alto,
montanhas de aço e vidro
prostradas ao céu.

Mais uma cidade, caída aos meus pés,
Ah! Janeiro, Fevereiro, Outubro e Dezembro,
Visitara-vos como se estivésseis já acabados,
Qual Muralha de Constantinopla feita em fanicos pelos turcos,
Ah, vida, civilização, eterno adeus, eterno recomeço,

Adeus ao homens chegados a casa cansados!
Adeus às mulheres, renitentes no sexo depois de uma ida ao cabeleireiro
(e por vezes aborrecidas no meio da violência)!
Adeus às armas, coroa de louros de heróis longínquos!
Adeus Guerra Clássica!
Adeus Soldado Desconhecido!
Adeus namoricos de janela, tantas vezes defraudados
e aniquilados pelo sol de todos os dias (porque não vos refugiasteis
então na lua - o sol dos lobos?)!
Adeus inflações e deflações!
Adeus crianças à beira do abismo!
Adeus poetas sedentos de abismo!
Adeus à velha guarda e aos seus sábios conselhos!
Adeus histórias por contar (porque vos garanto, doravante
nenhuma história ficará por contar e nenhum nobre génio por reconhecer)!
Adeus à pátria, e que alegrias e tristezas inspiraste no coração dos poetas!
Fique esta porta bem selada, não vá alguém se lembrar de entrar!
Adeus! Para sempre! Adeus!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

No Cais do Sodré

A janela aberta
Para o Cais do Sodré
Mostrou vanidade
Nos esforços humanos

Homens tão jovens
Desmasculinizados,
Vasos de Guerra
Inutilizados,

Pernas e braços,
Cabeças sem par,
Troncos desmembrados
Lançados pl’o ar

Mas mais do que tudo,
Um lindo estendal,
Roupa remexida
Pl’o vendaval

Num suave tormento
Calças por pernas
Inchadas pl’o vento

Correntes circulares
Vazando a maré
Foi tudo o que vi
No Cais do Sodré.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Osíris precisa de sangue

Osíris precisa de sangue,
Desta vez de qualquer um,
Tal a sede que o atormenta.

Osíris precisa de sangue,
De promessas e esperanças,
histórias de vida por contar,
Páginas por escrever .

Osíris, de espírito animal,
Precia de sangue humano,
Nada de inusual,

À hora do discurso
Surge bem aperaltado
Dar-se-á por satisfeito
Quando estiver saciado,

Por entre os cortesãos
Com saber improvisado,
Dará por eterno o presente,
Futuro eterno inacabado.

Osíris quer sangue e vida
Comer e encher a pança
Dar-lhe-emos o que quer
Antes que coma a esperança.

sábado, 26 de junho de 2010

Vê linda como partem os comboios,
Vê que com absortos ocupantes,
Talvez a esperança lhes traga silêncio,
Vê a paisagem que muda
E que também nós mudamos,
Só o silêncio em mim não colhe
Nem as flores que plantei em tuas mãos florescem
Pois seja... Basta tolhê-las da terra e já não crescem,
E também já não semeio margaridas
Porque apenas colho cravos e rosas.
Não fites mais os trilhos linda,
Nem os comboios que passam,
São apenas sombras, os que os ocupam,
E nós apenas espectros desconhecidos.

sábado, 12 de junho de 2010

Expressão

A um olhar atento e gélido
respondo-te com um sorriso,
Poderia ser de outra forma
Para nós comediantes?

Um abraço que afaga e que bate,
Uma boca que beija e que insulta
correndo pelos cantos a um torso
não bronzeado
Perdendo-se num jogo de espaldas
finamente torneado,

Para ti natureza viva minha
de tantos de tantos e tontos
que te servem para quê?
Para que sacrificas a um Deus
desconhecido quando o Deus da
tua nascença é mais ancestral...
Para quê? Só tu bastarias
sem a nossa natureza
masculina e opressora
impostora quantas vezes
colocar-te-ia eu ou
um outro qualquer um
véu de noiva moribunda
ou uma casa com jardim
ou um passeio de domingo
à tarde ou sabe-se lá mais
o quê ou nada
Tu uma possibilidade de vida
entre tantas outras
um dia recordarás estes momentos
de doce loucura como isso: loucura,
Dirás que isso é loucura e que
a loucura é má
E pedirás perdão tantas vezes
por aquilo que foste e tentarás
aniquilar todo o resto de ti
que ainda se alimenta desse passado
agora obscuro
E então o teu olhar gélido e apaixonado
tornar-se-á vago e pequenino
como a canseira dos dias.

domingo, 23 de maio de 2010

Pega no teu livro, Amalfitano

A Roberto Bolaño,

Pega no teu livro e expõe-no ao vento,
Ao sol, à chuva, a todos os tormentos,
Pendura-o pela capa resistente,
A ver o que nele fazem os elementos;

Pendura o teu livro no deserto,
Vê como é robusto e resistente,
E ainda que, matéria indiferente
Se alça num invisível protesto;

Do que fala o teu livro, Amalfitano?
Fala de geometria ou de demência?
De sofrimento, morte ou inocência,
Ou de vida, tão só vida?

O polígono, a secura de um polígono,
O círculo, o quadrado, o triângulo,
O hexágono, o pentágono, o losango

Verdade+Verdade


Vida

Impossibilidade

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dia 25 de Abril, A Álvaro Cunhal

Ah! Manhã!
Apeteces-me à uma
só e una,
Sob o sol primaveril
Que traz a esperança,
A quem tem pouco traz pouco,
A quem de muito bonança,
Manhã de Abril!
De infaustos gaiatos
que brincam na rua,
Minh'alma é só tua,
Portentoso Abril,
Abrupta memória
Inexistente
Do soar fantástico
E hinos de glória,
Agora és de plástico,
Plástico? Nem plástico,
Só absurdo,
Como sempre na história
Te disfarçaste
Como sempre na história
Nos desenganaste
Ao nosso triste fado,
Como sempre na história
O operário respira
O ar envenenado,
Ah! Abril, eterna tristeza,
Eterno naufrágio,
Que já quando era nado
Eras já, Abril corrompido,
Prostituído,
E há quem te encontre um
tom de estío?
Nada, Nada,
De nada servem mais canções,
Preces e ilusões
Mas coragem, só coragem,
Coragem de perder!
Respeito!
Força Abril!
O da memória inexistente...

Dia 24 de Abril, a Salgueiro Maia

Ainda que louco,
mais ingrata é a sorte
que me deixa só,
sem dor nem alegria
nem morte por companhia
mas só,
Mas é cousa de pouca monta,
Pois nestas andanças de estar vivo,
Só coragem e bravura pouco conta
Só?

Dia 23 de Abril, A Rosa Casaco

Doce calma, ar, puro, seco,
Lisboa da minha vida,
O resto? Aranha corcomida
Voando tresloucada pelo tecto.

Lisboa das mil varandas a arejar,
Quem te vira assim desprevenido
Diria que o teu indolente rio
É assim tal como uma espécie de mar.

Lisboa do largo tejo sempre igual,
O mesmo mar que vira outras andanças,
De potestades vãs e vãs esperanças,
Escondido pelas ruas ruge o mal.

Foi-te assim concedido o suave clima
Que abranda às almas os loucos intentos
E a luz abunda e abafa os lamentos
A um monótono amanhecer,

Sempre incrível!
Lisboa possível!
Paraíso...
Paraíso possível...

Dia 22 de Abril, a Soares

Mas que merda de país tu me
saíste, na verdade,
Que só quando se ergue a
voz aos anjos,
Eles nos concedem paz, pão,
povo, liberdade!
E a Guerra--- só a conheço
como tal: Guerra!
De quem da minha vida
me fugiste?
Merda de país que me
pariste!

Dia 21 de Abril, a Cerejeira

Deus é só um,
Mas a vida tão varável,
Mas tão lógica e imutável,
que parece o tempo uno
só por si...
Lógica, Deus... por quem
me obrigas?
Que importa tanto arfar e
inquietação?
Que interessa tanta dor, se
Deus fez tudo?
Calmo... assim é Deus.
Calmo, silencioso, lógico.

Dia 20 de Abril, a Humberto Delgado

Quem ousa amar
e dizer que ganha?
Quem ousa mover-se
no pântano e cantar vitória?
A morte é um lugar
estranho, sempre foi,
e a vida permanente
inquietação...
Só tudo vai passando
e só vejo luz e
barulho - - - agitemo-los
ainda mais , e que
o fogo incendiado em
cada esquina seja meu!
Depois, loucos, extravagantes,
Viveremos para sempre...
Quem ousa?

Dia 19 de Abril, a António Ferro

Sonho? Sonho é nada!
Vida é lutar e acreditar,
O resto? Ideias? Nada!
Só uma ordem...só e expressa
A vontade de um líder escohido,
O resto é caos e abismo,
O desnorte tão perigoso,
Só o heroísmo,
O tudo e o nada,
A pátria amada cujo sol
ilumina
O respeito precioso,
a ordem humana,
só, e um líder,
O resto é nada!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Gaivotas sanguinárias

Dissera avaro um dia assim,
que a estupidez humana é
inexorável
E a bondade, esse monstro
de mãos largas
Sorria-me
como quem dá,
como quem tira,
como quem sofre.
Exclamou-se que a loucura
é contagiosa,
e não tardarei em surpreender
os vizinhos com olhos esgazeados,
como quem dá,
como quem tira,
como quem sofre,
E as ideias, essas..., valem de pouco,
e o homem vale pouco,
e a carne de pouco vale,
Talvez por isso a gaivota
a trazia suspendida no bico,
como quem dá,
como quem tira,
como quem sofre,
E as gaivotas suas amigas,
essas de penas brancas
como um peluche,
cobiçam-lhe a carne pouco valiosa,
como quem dá,
como quem tira,
como quem sofre,
Enquanto a carne solitária
estrebuchava, sozinha e
estrebuchando, pensavam as
gaivotas: se todas trazemos a
nossa carne no bico,
[e] quem dá?
[e] quem tira?
[e] quem sofre?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Corria o ano de sessenta e cinco,
Nem Deus ainda existia,
Ou se existia, não sabia
Que o viria a ser um dia.

O bom pastor olhou o seu rebanho
E viu suas ovelhas bem malhadas,
Momento após momento atordoadas,

Co'a estranha imensidão do universo,

Comiam erva sem saber o que a compunha,
Glícidos, lípidos, triglicérides,
Corriam preocupadas a herdade
Cientes da bestial animalidade,

Mas eis que o bom pastor intercedia,
Corai ovelhas todas de vergonha,
Pois não sabeis que é vossa só a culpa
De o Ser,
Condição medonha...

domingo, 28 de março de 2010

Órfãos do tempo

Esses Sans-Coulottes esfomeados
Que hoje assaltam os celeiros do Faraó,
Vejo-os no tempo,
Temporalidades fora do tempo,

Não nada e são tudo,
Massa invisível,
Cambaleantes do progresso,
Arroto da civilização...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Madeixas Loiras

Porque fizeste essas madeixas loiras querida?
Porquê?
Porque te sentes bem assim?
Porque os homens preferem as loiras?
Porquê?
Não te esqueças que Deus é Deus,
E que ofendê-lo é pecado...
E Deus, a uns fê-los brancos,
de olhos azuis, outros loiros,
negros, amarelos... até franceses,
vê lá tu!...
A mim, esbarrou-me
com este nariz judeu estúpido
que tenho;
A ti fez-te com uma linda
cara oval adornada com
lindos cabelos castanhos
finos que nos momentos
mais felizes caem abandonados
na tua testa.
Colocou-te também dois lindos
olhitos em forma de amêndoa
que tantas vezes vejo eivados
de desespero, ou semi-cerrados
porque estas cansada
de trabalhar ou felizes
porque acabaste de saber uma
boa-nova picante na revista.
Impôs-te duas mãos demasiado
largas que bem poderiam
ser de um rapazito adolescente.
A mim mãos compridas com
dedos delgados que bem
poderiam ser de obstetra.
Não cheiras a Chanel... Mas
a alho quando cortas alho,
hálito de cebola quando comes cebola
e... obviamente
tal como todos os outros mortais,
o ácido sulfénico faz-te chorar.

Agora diz-me querida,
Se Deus colocou em ti tanta beleza,
Porque gastaste os últimos tostões nessas madeixas loiras?

sábado, 20 de março de 2010

Se olho o universo escuro e frio
Não vejo aí nenhuma dignidade,
Nem réstia de destino ou liberdade
Nem compaixão pela morte ou desvario;

Quem vive vai sorrindo ao breve estio
Em busca d'harmonia e humanidade
Resgatando o são amor à crueldade
pousando os pés assaz no mesmo rio,

E é já música antiga o que se esvai
E loucos correm os homens p'la certeza
Na pista do acaso, de onde sai

Encoberta violência , aspereza,
Cegueira, insensatez... Encarcerai!
Tornai-vos, merda, a mais fina nobreza!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Ei-los, os bárbaros

Ei-los, os bárbaros,
Chegam hoje a Roma
Onde confortavelmente
Se instalam.

Ei-los, os bárbaros
Prestam tributo
Ao Deus cristão
Fizeram suas preces.

Ei-los, os bárbaros,
Conspurcam o templo
Violam as vestais
Destroem o altar.

Ei-los, os bárbaros,
Mancharam de sangue
Colunas coríntias
Manchadas de sangue.

Segue-se agora a noite,
A noite dos tempos
Uma noite bárbara
Para almas bárbaras.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Lembrança

Lembro-me de tudo, querida,
Lembro-me de como aqueles
dias chuvosos na nossa cidade
maldita se tornavam
agradavelmente solarengos.
Lembro-me daquele dialecto
Estranho que falávamos e
Com o qual nos entendíamos
Como se crescêramos no mesmo
Berço.
Lembro-me de como uma
noite rodopiaste em torno
de mim como uma bailarina,
E como eu cerrava os lábios atónito,
E tu rodopiavas como o sol
Em torno da terra antes
De Copérnico.
Lembro-me de como te afagava os
Gritos com a minha boca.
Lembro-me como encostava
O meu tórax nas tuas costas
E assim os nossos diafragmas
Bailavam juntos.
Lembro-me como limpava
A última gota de gelado que
Deixavas no canto da boca
Com um beijo.
Lembro-me de como um
dia dizias que tudo era
de uma realidade tão irreal
que cortava a respiração... e
que o teu ser físico abandonaria
a cidade.
Depois... Depois era o silêncio,
E as ruas que se me compunham
nos olhos como uma teia, e
que tudo que me entrava
nos olhos feria, e a realidade
só fazia sentido contigo,
o ser mais irreal.
Lembro-me de como um dia
Deixei o meu nome escrito numa
Parede, onde antes existia também
O teu, e que um dia ficou apenas
o meu com as sua odiosas
sílabas.
Mas sabes, querida, se te serve
De consolo, talvez o tempo apague
Também o meu nome dessa
Parede, restando apenas eu,
Tu, e a cidade maldita...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Só há mar no meu país

Só há mar no meu pais,
Estendido e colossal,
Pois só assim se vê
O reflexo
Das almas dos seus filhos;

Só há mar no meu pais,
E correntes e marés,
E corpos que vagueiam,
E corpos que flutuam
Em estepes infinitas;

Há mar só no meu pais
Que inunda a massa amorfa,
Leve, monótono, enfermiço,
Arrastado e infeliz;

Mas se apenas em mar se fez história
...

Cesse!

Tenho fome,
Fome e sede de justiça,
Vontade e não saudade
De ir, perecer e sonhar;
Sede, não de água salgada
Mas de vinho envenenado;
Fome, não de troços e couves
Mas de ambrósia divina;

Sede e fome de história
Ou do frio sepulcral,

Sede e fome de glória
Ou desgraça colossal

Mas nem a desgraças te prestas
...
Pequeno Portugal

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Retrato

Observo o teu perfil e o teu andar
Teu globo azul que cobre a retina
O teu corpo feito de água e albumina
Com massa adiposa a resguardar,

As veias que se perdem a irrigar
Qual mapa infinito de uma mina
Ruborescem tuas faces de menina
Reflexo sensorial ao meu olhar,

E a forma retraída neste instante,
Desenha tua boca em esplendor
Como se recusaras, qual farsante,

Que oferece logo tudo sem rancor.
Mas sabes, filha, cago no amor,
E em todos os despojos de amante.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Deriva

Visto o casaco puído do tempo,
Clochard autorizado,
Rugas não tão ansiadas
Cravam-me a testa,
Cicatrizes de combate.

As calças apertadas atolam-me
a natureza;
Os sapatos preparados
Para uma boa refeição.

Em vão tudo desfila diante dos meus olhos:
Máscaras de cores garridas,
Anões e bobos de corte,
Carpideiras contratadas,
Cuspidores de fogo
transportados em traineiras;

Tudo tão irreal
À realidade tão palpável
do meu estômago colado às costas.

Marujos mareados a mil marés
Convidam ao embarque a terra nova
O capitão está louco,
O mapa a estibordo,
A carga no mar flutua…

Chega-se a hora de jantar,
Não chega que tenhas bom estômago
mas também bons dentes,
Pois o pão da emente de hoje é duro;

E que tenhas coragem,
Pois também é bolorento,
E audácia,
Pois terás de o roubar,
E força,
Pois terás de correr com ele.

Já não se preocupam com o que não te dão,
Deves antes preocupar-te com o que ainda te podem tirar;

O capitão está louco,
O barco à deriva,
A carga a estibordo.

Visto-me de nudez vestido
Louco sedento,
Aterroriza-me o descanso.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Diapasão - II

Na negrura alva de um tição
Vi que tudo em tudo assenta em nada
Que o mais belo corpo assenta em água
Não existe esperança ou salvação;

Se o que vemos é real ou ficção
Em que credo ou altar sacrificar
Se ao Deus Maior ou ao Deus do Lar
Quando a vida nos aporta confusão;

E são tudo fluxos, fluxos incessantes
Aflorando em várias margens o eterno rio
Sem saber se é bom ou mau, quente ou frio
Apenas que vivemos, morremos, tal como antes.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Sonho

Um cortejo bizarro que passa
O passado entre sombras tenebroso
Um charco de sangue que alastra
A uma cova qualquer onde se afunda

As pedras que ocultam indiferentes
A imagem daqueles que contemplam
Os náufragos que adornam as correntes
Dos tempos que em verdade nunca mudam

Só força, de onde vem toda essa força
Que faz aguentar o peso insustentável
Da memória?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Diapasão

Enquanto tudo arde lá fora
Atenho-me ao meu quintal
Realidade perceptível,

Nada exijam mais de mim
Nem as grandes prelecções do ocidente
Nem o terrorismo islamita
Nem a complexidade dos sistemas autopoiéticos e auto-referenciais,

Limitem-me ao meu quintal
Alimentar os meus coelhos
Alimentar as minhas galinhas
Passear os meus cachorros

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Se vês que a salvação está no teu corpo,
Aí só vejo morte e desperdício
Sem desprezar da vida o alegre vício
De crer que o ver é o seu mais nobre sopro

Mas crer no ter é cair no amorfo
Espaço de ilusão cujo resquício
As mãos levam em último suplício
No púrpura fatal do inerte corpo

E tu que já em plena luz do dia
Clamavas por um verso mais contente
Saberás que o tempo é pura fantasia

Saltando pardacento o meio-dia
Caindo em versos ternos inocentes
Eterna triste e doce companhia

sábado, 21 de novembro de 2009

Não a ti mas a uma sombra apenas vejo
Essa sombra que ainda tanto me atormenta
Que torna vã a vida tão violenta
O espectáculo de horrores passa em cortejo

Corpos corpos sem nome eu só desejo
Nomes nomes sem corpo o ser sustenta
Ao som de aras pútridas aguenta
Apenas o teu nome e o teu beijo

Mas ó mulher a vida é aparência
E o dia que promete é só fugaz
E o amor uma espécie de indecência

Que fulge distraído essa demência
De ser vilão e herói e ser capaz
Ou mísero pedinte da inclemência

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Flor

Chuva, como quem caia em memória,
Flor, se pensar que eras flor,
Se apenas um momento de vitória,
Foras minha e não o contrário de quem espera
Flor desavinda…

Chão, faltara apenas o chão,
Quando construía, construía a quimera
Desejara Babeis e Gomorras sobre a terra
Quando tudo inexorável ruía,

Mas flor e chão e chuva e sol
Só por ti foras sol e flor e chuva
Foras, simplesmente,
Não fosse a noite tão escura.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Perversos céus opacos
Sempre nós assim
Fugimos de rios e pontes
Sempre nós inocentes objectivos

Sem Deus nem lei nem pátria
Só a eterna sobrevivência
Coloca cabeças ao alto
E espalha nos corações alegria

Quisera eu sempre bocejar
A sombra da minha virtude animal
Mas a dúvida atroz vai vencendo
Já nem nada chego a ser

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sozinhos e perdidos
Presos a um chão gelado
Assim nos quer o tempo

Soltos como quem pena
Penitentes como quem ri

Mas é já tempo e a aurora
E algo nasce já grande
Como nunca fora criança

Sorri homem
Deserto moribundo
Como em tempos de calma
Se sente o sangue e a merda
Que do mundo exala

Sorri homem e enxerga
A outra vida que nasce
Essa nunca criança
Em hora nova chega

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Celebração

I


Hoje celebro:

A tristeza e a alegria,
A paz e a guerra,
O mar e a terra,
Fulgor e melancolia;

Celebro:

O meu sangue envenenado,
A beleza que passa,
O grotesco e a graça,
O viver enganado;

Celebro o penitente
Com o mesmo enfado
Do engalanado;

Celebro assim,
De forma indiferente,
Na mesma canção
Apenas porque, enfim,
Seja cão ou gente,
Pisa o mesmo chão.

II

Tem tanta razão quem me ama
Como o que me cospe e difama,
Quer me exalte e enobreça
Quer me insulte e esqueça.

III

[taberneiro]

Avaros passamos,
Em cada momento,
Nada que criamos
Dissolve o tormento,

De ter de viver
Amar e sofrer,
Será a nossa sorte
Na vida e na morte,
[todos]

Não há hemisfério
Nem mar nem terra
Que saiba o mistério
Que a vida encerra,

[1ºbêbado]

Ergam bem a taça,
Senhores e senhoras,
Ventura e desgraça,
Boas e más horas;

[2ºbêbado]

Um copo de vinho
Fresquinho a jorrar,
Coroa sozinho
Um Deus no altar;

[prostituta]

Grego ou romano
Vilão ou paisano,
Honesto ou malsão
Pagão ou cristão,

[todos]

Bebam amigos
O néctar da vida
Os sonhos esquecidos
A infância perdida

[taberneiro]

Bebam, que se faça
Ouvir tilintar
O cristal tão frágil
Quase a estilhaçar;

[estudante]

Tudo é tão fútil,
Nem quero pensar
Que aquilo que é útil
É para largar;

[assalariado]
Se a própria existência
Inútil por si,
É pura demência
Para quem não ri;

[recém-chegado]

Por isso eu bebo
Para meu opróbrio
É maior o medo
Para quem está sóbrio

[todos]

Bebam companheiros
Enquanto haverá
Vinho carrascão
Que a vida nos dá;

[poeta]

Triste? Triste é respirar o mesmo ar
E não ver do mundo outra beleza
Que comer, beber, procriar,
Não ver o doce tom da natureza.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

I

Sôfrego, o lar,
Eterno vazio,
A Alma afasta-se
Para onde já não há tempo.

Se será, assim, viver,
Onde já não mora o tempo,
Até onde se verga
A ideia inflexível?

Não! Foge já, mas espera
O tempo
Esparso em parcas memórias

II

Acorda, é luz
E suave a aurora
E o dia promete
Mais do que devia…

III
Só hoje é dia e chorei,
As almas que nunca existiram,
As imensas páginas por escrever,
Os beijos que me recusaram.

IV

Porque foges, se ninguém te segue?
Porque gritas, se ninguém te ouve?
Ainda antes de seres pó,
Antes ainda que as tuas entranhas
entrem em autólise,

Serás pó, quantas vezes…
Quantas vezes deves morrer?

Saberás apenas
Que a verdadeira morte
é essa a que te impões,
De que não gritas,
Passas calado.

Aparte isso,
Nada é diferente
do que seria
se gritasses
à exaustão,

Ninguém sofre
com o que dizes,
Ninguém muda,
porque o queres

Habitua-te a essa condição
Tal como a frase
se habitua à palavra.

REPITO: (mais uma vez):
Se o teu coração está em silêncio,
Deixa-o estar em silêncio,
Sufoca, ainda mais,
O apelo surdo da verdade.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A morte que espera na estrada
não é de coisas e gente
não veste de negro
não usa capuz.


Disfarça-se de vida
e é quente o seu corpo

Coroa-nos, reis da nossa visão,
heróis da decadência
acorrentados a um chão gelado,

Dá e tira, beija e cospe
para dizer: “vês? Isto é vida,
agora não percas a esperança”,

Por esta estrada vejo romeiros,
perdidos e vãos como eu,

De resto, nada difere,
por mais que ria ou que sofra,
ou deleite a minha paz

Mesmo que um susto
me salte ao caminho

Qual maldito resistente
Direi: “isto é vida…”

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Olha Marília

Olha Marília,

As giestas decansando
como se fora
resultado de grande labor,

Olha e vê como varia
o mundo que temos,
Esse, tão só,
o dos nosso olhos adentro,

Sente como tudo acontece,
e que nada podemos
que não passear a nossa indiferença...

Enquanto tudo arde---

Vê como nas coisas comezinhas
se esconde o sentido de tudo,
Então compreenderás
o instável sossego que a mesquinha
paz do lar me trazia à alma,

Toca no meu corpo cansado,
Estou velho, não vês?

Mas vem, aproxima-te...
Sente como neste corpo cansado
os meus olhos ainda ardem,

Encosta a cabeça no meu peito,
Respeitemos o silêncio,
Se escutares com atenção
ainda me ouves chorar.


Agora compreendo a paz que sentias
quando ias às festas e romarias.
Como toda aquela calma algazarra
te colocava um véu nos olhos coloridos.
Mas um dia envelhecemos, e de sopro
compreendemos como tudo é tão patético,
desde o primeiro suspiro ao primeiro homem livre.
Caluniar-nos-á o tempo com a sua indiferença
e ferir-nos-á com as suas omissões criminosas.
Entretanto, não penses nem olhes para trás.
Lembra-te do tempo assassino...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A uma cidade

Abril, ao som da chuva incerta,
O vento em suave cadência
Roubou dos corpos a inocência,
Dissolveu a cidade deserta;

Caiu na desgraça mais certa,
Aquela que envolve os amantes,
Transformou vivos em errantes
Por entre essa vida encoberta;

Já nem isso és nem memória,
Do tempo em que viva folgavas
Jazes, coberta em glória,

Dos ilustres que tanto afagavas,
Agora, sufoca-os na história
Da chuva de Abril que esperavas.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Antropofagia

Mate-se o Rei,
Saqueie-se o Templo,
Queimem-se as casas.

Já nada faz sentido,
Nada, sem a Grande Desgraça,
Esperemos por ela
como a noite espera o dia,
Agora, que já ninguém nos pode salvar;

Nada é possível,
Apressemos o fim,

Mas faremos amor,
Trabalhemos,
Construamos as nossas casas
(até com telhados de colmo),
Falemos das nossas políticas,
Gastemos o nosso dinheiro.

Tudo é permitido aos que morreram.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Minas de Ouro

Enquanto o som da fuligem ruge
Furiosa,
Passo calmamente ao seguinte
Momento,
Se sei o que é o sublime
Guardo-o,
Guardo-o só para mim,
Esmagado por séculos e séculos
De avanço científico,
Sei que vivemos de ideias,
Pelas ideias submetemo-nos
às maiores violências,

Será apenas arrogância?

Pensar que obedecemos ao
Sistema,
Nem justo nem injusto,
apenas aquilo que é,

Mas ideia, emoção ou nada,
Como te desprezaria,
Como te desprezaria
Com todo o meu coração
Se apenas por uma vez pusesses
em perigo esta leve sensação
de prazer que agora sinto…

Existe ainda o Amor,
O Amor e a Beleza,
As desilusões,
A sociedade,
A embriaguez,

Mesmo a vós, Amor, Beleza,
Esmagar-vos-ei,
Se alguma vez sentir o estômago vazio,
Dessas sensações que fazem ranger os dentes,

Repito!

Repito que esmurro o primeiro
Idiota que me falar em mudança,
se estiver com fome, é claro !

Assim,

Talvez seja o melhor,
Fixar-mos apenas o olhar no chão
Quando te penetrar de novo,
Tudo se vai compor,
O sol na sua órbita,
Os poetas e as sua metáforas,
E uma breve nostalgia de ser pedra.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Acabemos com as palavras

Acabemos com as palavras,
Finalmente!
Empecilhos,
Queremos a essência
dos rostos,
das acções,
A Beleza e o Amor como eles são;

Inventemos a nossa própria língua,
Não lhe chamaremos língua,
Chamemos-lhe anátema!

Depois faremos um Castelo
apenas com ideias, emoções e suspiros,
sem palavras;

Podemo-nos arvorar de criadores,
Quiçá Deuses?

Sairemos à rua
Como Gulliver em Lilliput;
Seremos gigantes num mundo sem factos;

Acabaremos também com o Tempo,
Faremos musas com as unhas dos pés
e escreveremos apenas com os
nossos corpos.

Então viveremos!

O Espelho

Em todas as épocas,
Daquelas que existiram,
Seria difícil imaginar
A vileza em que vivemos.

Se alguém que existiu,
Noutros tempos, noutras eras,
Vive ainda;

O seu espírito
em tudo o que existe;

Transmutar-se-ia


A sua boca e ouvidos,
Nariz e garganta,
Seriam apenas olhos,
Uns olhos estúpidos e desérticos;

Veria, com olhos estúpidos,
Indiferentes ao seu reflexo,

Tal como o espelho o é,
Seja feio ou belo
o seu objecto.

Esse espelho,
Estúpido,
Passaria diante de nós,
(Porque não dotá-lo também de pernas?)

O Belo e aparente,
Deleitar-se-ia,
Como é belo.

O feio veria apenas
o que é;
feio.

Então esse espelho,
O de olhos vazios,
Ver-se-ia em outro espelho;

O que seria?
Porque não imaginar?


Os seus olhos vazios
transformariam

Vida,
Natureza morta,
Frutos podres;

Em vida;

As pequenas infelicidades de cada um
Em troféus,
Recompensas;

O medo de viver
Ver-se-ia
Então,
Ao espelho.